sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Funcionalismo obtuso, fisiológico e miserável

A exemplo do Steve Jobs, quando não me senti mais capaz de liderar devidamente o CCM - Comando de Caça aos Modernistas, abdiquei do cargo. Não que fosse lá um trabalho exaustivo, já que basicamente minha atividade era criar inimizades valiosas, mas percebi que era um esforço insignificante, já que o mundo está mesmo infestado com modernistas cuja amplitude de visão é equilátera, a intelectualidade neanderthal, e a sensibilidade símia. A cruzada pós-moderna estava realmente fadada ao fracasso (comigo ou sem migo). De lá para cá, constitui amizade até com modernistas e outras rudes criaturas, provando que podemos conviver em harmonia mesmo as custas do meu bom humor (vivo estressado com as tosquices que tenho que presenciar).

Ainda sim, alguns conceitos se provam valiosos, como o de funcionalismo fisiológico e sua variante, o funcionalismo miserável. Para explicá-los, retomemos a idéia geral de funcionalismo equacionada por Sullivan, que muito antes do twitter, já insistia que form should follow function.

Na sua origem, o funcionalismo mesmo pragmático e objetivo tentava deixar um pé na cozinha e criar alguns laços bastardos com a estética, a poética e a plástica; mesmo com a profundidade de uma carta de baralho, quando restrito ao limite de 4 andares, as obras funcionalistas tinham cá um certo charme. Chamo estas obras de arquitetura e design de funcionais-obtusas, já que seus grandes mestres nunca pararam para se questionar se o que chamavam de função não poderia ir um pouquinho além do óbvio. Deyan Sudjic fala que existem sempre 2 funcionalidades: a pragmática e a simbólica (coisa simples que os obtusos nunca perceberam)... eu tento simplificar um pouco dizendo que nem tudo que é importante é assim porque tem utilidade prática, a exemplo de um projeto de arquitetura que fiz durante a época de estudante sob tutela do querido professor Miguel Forte: tentava explicar aos colegas que as colossais barras de metal vermelho que atravessavam a casca de concreto do anexo que projetei para o MASP não sustentavam a cobertura (que era obviamente auto-portante), mas que estavam lá pelo propósito da linguagem; mesmo com a abertura rara que possuía o Miguel para coisas que fugiam ao seu metier, ele insistia comigo que aquilo precisava de uma justificativa estrutural. (colocarei este e outras porralouquices de tempos de faculdade em outros posts, agora que estou plenamente equipado para tal e não dependo do Sopa e do Silvão pra me ajudarem!).


Exemplar típico da funcional-obtusidade franco-suíça.
Com direito a arrependimento de fim de carreira.

Ainda que obtusos, as peças e obras flertavam com a cozinha; é impossível dizer que a famosa casa de vidro de Mies van der Rohe não é bonita e divertida e que seu projeto segue estritamente os problemas funcionais de uma residência (funcional mesmo só sem vizinhos, neste caso). E logicamente, não poderemos comparar os funcionais-obtusos com os funcionais-fisiológicos, mesmo que ambos se apoiem na mesma equação de Sullivan; os funcionais-obtusos estão para os fisiológicos na razão que Eric Clapton está para Chimbinha.

Dificilmente arquitetos e designers funcionais-fisiológicos adquirem reconhecimento internacional. São mais conhecidos localmente circulando pelas revistas de decoração e projeto ao reciclarem coisas desconhecidas (e batidas) para um público-alvo mais ignorante; seu trabalho, pragmático e objetivo, ao contrário dos obtusos, é incapaz de estabelecer diálogo com a estética, poética ou mesmo a plástica, se reduzindo ao mínimo intelectual possível, e ao que está obviamente estampado na sua frente. Apesar de acreditarmos que esta espécie de funcionalista é comum em nossas terras (e são comuns, há revistas dedicadas a suas obras), eles são vastos mesmo em terras Cino-Tailandesas, exercendo sua metodologia de trabalho a desde produtos de consumo até lojas inteiras. Podemos ver suas grandes criações em lojas como a DealExtreme de Hong Kong, com produtos claramente marcados pelo excelentíssimo trabalho destes designers, como o "Designers Huggy Table Salt and Pepper Holder" abaixo, ou na extensa lista de produtos feitos por estes designers.

Reparem no acabamento exemplar da peça que lhe permite,
excepcionalmente, permanecer de pé.

Os comentários gerais dos produtos, assim como as obras de arquitetura funcionais-fisiológicas são bastante parecidos, e giram no geral em torno de sentenças como "Faz o que se propõe a fazer, e nada mais".

Já os funcionais-miseráveis são uma variação do funcional-fisiológico mais comum em nossas terras; compartilham da objetividade e pragmatismo de toda a corrente funcionalista, incorporando nela o mínimo de reflexão típico do funcional-fisiológico e um componente de análise econômica-funcional que demonstra que coisas bem feitas e bem acabadas parecerão mais caras e terão conseqüentemente menor consumo, uma vez que a população quer mesmo é coisa barata e vagabunda; um exemplo arquitetônico pode ser visto na zona cerealista em São Paulo, onde os valores negociados chegam as casas de milhões, mas a arquitetura e urbanidade podem provocar medo e insegurança no transeunte desavisado.

Zona Cerealista de São Paulo
Foto de Milton Jung

Por mais que alguns arquitetos não considerem praticar o funcionalismo-miserável, são geralmente pressionados por seus clientes a transformar seus projetos em obras mais assimiláveis ou viáveis, chegando a casos onde a água da construção é retirada da própria praia. A idéia geral aqui é que aquilo que um funcionalista-obtuso consideraria trivial pelo próprio fato de estar organizado no campo, racionalmente composto e legível, poderia entrar em contradição com os paradigmas e referenciais culturais do que a peça ou obra deveria ser, isto é, algo de acabamento duvidoso, mal gosto, mal resolvido e claramente econômico a ponto dos produtos vendidos através da obra ou peça (uma loja ou um cartaz) não serem onerados pelo custo incurtido do projeto neles. É a garantia factual que o consumidor tem de que está pagando o mais barato possível pelo produto ali apresentado, como é de seu agrado, independente do ambiente ou do material (secundários para ele) que é preciso utilizar para comprá-lo.

Estas taxonomias que apresento aqui para vocês são algumas das grandes contribuições que o CCM produziu e que muitas vezes (ou efetivamente sempre) estiveram distantes da notoriedade pública; se meu bom-humor persistir (ao contrário do que é previsto), trarei mais algumas destas produções aqui.

4 comentários:

Ranoya disse...

Apesar do Betão não ser um membro oficial do CCM, e ser praticamente um modernista, gostaria que ele apresentasse aqui o conceito de Bomba Árvore que só não entrou como contribuição oficial ao CCM porque ele já estava extinto nesta época.

Betão Fialho disse...

Como meu santo nome foi mencionado devo dizer que o conceito citado pelo Ranoya não foi posto em prática em função da nossa formação judaico cristã que não admite o eixo básico da proposta. Enquanto a proposta fala em recuperação acelerada da mata atlântica, uma meia dúzia de manés fala em extermínio. Mas de qualquer forma estou devendo o projeto excutivo da Bomba Árvore. Ah, e eu vou patentear!

Valéria Fialho disse...

Caraca ! O que vocÊs andam tomando ?

Ranoya disse...

O que você acha, Batma???